sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Racionamento

Clarice e Cecilia,

Estamos em 2015 e a água está pouca. Não direi que está acabando. Veio a ordem lá de cima, dos governantes... a ordem é racionar. Desde sempre vocês aprenderam que chuveiro serve para molhar, mas nosso chuveiro à gás, será por um tempo aposentado para banhos demorados e risonhos... não se pode mais deixar o chuveiro aberto enquanto se brinca, se ri, se desenha nos azulejos com a espuma. Não se pode mais fazer bolhas e ensaboar os cabelos lentamente em meio a cantorias e tagarelices, às vezes e muitas vezes, em meio a choro de criança que tem medo de lavar os cabelos... mas logo o choro se vira em riso e cócegas. A água não pode mais escorrer ralo abaixo enquanto tudo isso acontece num banheiro pequeno. Na verdade, filhas, nunca pôde mesmo.

Racionemos a água. Escutem... racionem apenas a água. O banho divertido não precisa acabar. As bolhas são feitas mais de sabão do que de água... façam um teste pra ver. As bolhas não precisam de água pra voar, é só assoprar. Tome cuidado com os olhos. Cuidado porque o sabonete arde. Ainda pode-se rir e cantarolar... pode-se pegar um copo colorido e jogar água morna  nas costas. Ainda pode-se tagarelar e fazer cócegas na Cecilia que adora água nos cabelos e fechar os olhos pra sorrir quando tem cachoeira escorrendo no rosto.

Não dá pra racionar esses momentos. Não dá pra racionar o riso solto no eco do banheiro apertado.
A gente prefere inventar uma brincadeira nova.
A gente prefere fazer um barco de papel e enfeitar o balde.
E contar histórias de pescador e de pirata.
E dar risadas pra escutar o eco.
A gente prefere ver o copo meio cheio, senhor governador!
Nem dá pra lembrar que tem chuveiro fechado enquanto tudo isso acontece.

Foto: Arquivo Pessoal






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