segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Minhas Tardes com Margueritte

A melhor definição sobre a diferença entre filme europeu e filme Hollywoodiano foi feita por Hitchcock. Certa vez ele disse que o filme europeu pode abrir com uma imagem de nuvens, cortar para outro plano de nuvens, e então cortar para um terceiro plano de nuvens.
Se um filme americano abre com uma imagem de nuvens, deve cortar para um plano de avião, e se no terceiro plano o avião não tiver explodido, a platéia estará entediada.

O marido e eu somos verdadeiros fãs dos filmes europeus. É claro que amo assistir "Enrolados e Frozen" com minhas filhas, eu não ignoro os filmes americanos... Mas quando quero me entregar e me envolver numa história real com finais reais, quando quero me emocionar e refletir, procuro um filme europeu. Infelizmente a crítica não promove filmes desse tipo. Talvez porque são produções pequenas, investimento baixo, que tenha um tema comum e que não exige tanto dos atores. Como quase todos os bons filmes europeus, "Minhas tardes com Margueritte" foi um delicioso passatempo doméstico com um roteiro impecável que dispensa qualquer efeito especial Hollywoodiano.

Germain é um bronco francês carente de afeto e de cultura. Na infância apreciava a leitura, mas era incapaz de juntar as palavras e por isso, cresceu em meio a chacotas na escola, chamado de burro. Criado sem pai. Ninguém nunca o viu com dignidade, a começar pela sua  mãe que sempre o desestimulou na infância e adolescência. Diminuindo-o, jogando na cara que foi concebido acidentalmente, nascido de fórceps, só trouxe sofrimento, foi um peso para ela que nunca investiu nele se quer uma forma de carinho ou elogio. Essa soma de traumas faz Germain crescer com um imenso bloqueio intelectual, sem perspectivas, sem  ambições, sem auto estima saudável.

Certo dia, Germain se encontra por acaso numa praça com Margueritte, uma senhora de 85 anos, apaixonada por livros. Uma anciã frágil como porcelana, cheia de ternura e que faz amizade com Germain surpreendentemente lendo em voz alta o livro "A peste" de Camus.

Margueritte aos poucos resgata Germain de seu abismo. Investe nele sua atenção e amizade sincera. Acredita que ele é capaz, educa seus ouvidos com a leitura. Em certo momento diz para ele: "Germain você é um ótimo leitor, porque ler é também escutar. Como as crianças que se acostumam com a leitura em voz alta."

Margueritte é inspiração para que Germain, homem rude como pedra, cite na voz imponente de Gérard Depardieu um poema doce. Impossível eu não colocá-lo aqui para encerrar esse post:


“Foi um encontro pouco corrente entre o amor e a ternura, mais nada. Tinha nome de flor e vivia entre palavras, adjetivos esmerados, verbos que cresciam como a grama; alguns ficavam. Entrou suavemente desde a carcaça até o meu coração. Nas historias de amor, tudo é grande; ás vezes não existe sequer ‘eu te amo’, mas a gente se ama. Foi um encontro pouco ordinário, a conheci por acaso no parque, não ocupava muito, o tamanho de uma pomba com as suas penas, embrulhada em palavras, em nomes, como o meu. Deu-me um livro, depois outro, e as páginas se iluminaram. Não morras ainda, há tempo, espera; não é a hora pequena flor, dá-me um pouco mais de ti, dá-me um pouco mais da tua vida, espera. Nas historias de amor, ás vezes não existe sequer ‘eu tem amo’, mas a gente se ama.”


Em francês esse poema tem um charme todo especial!

Imagem: Google









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