quinta-feira, 5 de junho de 2014

Um tapinha dói ou não dói?

Sobre dar ou não dar palmadas. Assunto polêmico!

Eu não entendo nada de Leis, mas sou filha e sou agora mãe de duas meninas. Quantos de nós apanhamos quando crianças? Eu apanhei. Sem violência, mas apanhei. Muitos amigos meus apanharam, posso dizer que quase 100% deles levaram surras de seus pais. Alguns dizem: "Agradeço aos meus pais por terem me batido e me dado limites, hoje sou um cidadão de bem." E tem outros que dizem: "Tenho mágoa do meu pai/mãe, demorei tempo para perdoar as surras que ele me deu." (eu conheço pelo menos 2 pessoas bem próximas a mim, que disseram isso).
Muitos apanharam e viraram cidadãos de bem.
Muitos não apanharam e viraram cidadãos de bem.
Muitos apanharam e levaram consigo marcas profundas na vida e no coração.
Muitos apanharam e viraram bandidos, mentirosos, ladrões, assassinos, estupradores, etc.

Bater nos filhos é uma questão cultural em nosso país. Alfredo (nome fictício) apanhava dos seus pais com galhos de rosa cheio de espinhos. Era isso que usavam para bater nele. Alfredo é uma  pessoa que não sabe abraçar e ser abraçado. Não sabe receber e nem oferecer um gesto de carinho. Ele teve uma educação muito rude. Alfredo cresceu e bateu em seu filho com a fivela do cinto, porque seu filho saía pra brincar na casa do amigo que morava logo ao lado. Alfredo deu aquilo que ele recebeu.

Albertina (nome fictício) perdeu as estribeiras quando viu a filha de 3 anos brigar com uma prima da mesma idade. Sem tentar conciliar o conflito, agarrou a criança pelo braço e saiu arrastando-a pela casa. O castigo aumentou quando Albertina percebeu que a menina havia feito xixi na calça. Passou então a dar palmadas nas pernas dela e a perguntou aos berros: "Por que você fez isso?". Só parou quando a filha respondeu soluçando: "Eu estava com medo de te falar, mamãe!" A resposta desarmou a agressividade da mãe e transformou-a em dor, culpa, remorso e raiva. Desta vez, de si própria.

Eu pergunto... O quê uma criança pode fazer que mereça galhos de rosa com espinhos em suas pernas, ou cintadas com a fivela do cinto? Por que ela saiu pra brincar? Na casa ao lado? E por quê uma criança de 3 anos que está em processo de desfralde precisa apanhar porque o xixi escapou? E pior, ela estava com medo de falar com a mãe porque sabia o que iria acontecer...
Se for para abolir essa atitude em casas brasileiras eu também concordo com essa nova lei.

Clarice levou umas palmadas, dessas de tirar o pó do bumbum algumas vezes, até seus 2 anos e pouco. Certo dia conversávamos ela, José e eu. Na conversa corriqueira, falávamos sobre coisas não muito importante. Clarice disse que não ia fazer determinada coisa porque eu bateria nela e porque ela tinha medo de mim e de apanhar no bumbum. Isso calou em meu coração.
Em outra oportunidade, Clarice fez uma travessura e se escondeu. Claro que eu a encontrei e perguntei por que ela estava se escondendo de mim. Ela disse: "por que estou com medo de apanhar no bumbum, mamãe". Ela disse isso com olhos aterrorizados. E vejam: nunca espanquei, nunca usei cinto, vara ou coisa parecida. Ela estava com medo de mim.
Fiquei pensando... não quero mais isso. Não quero mais ver esses olhinhos amedrontados. Não quero que ela tenha medo de mim. Quero que quando algo esteja errado com ela, que ela me conte, que ela abra seu coração pra mim e tenha em mim um abrigo seguro, um colo, uma palavra de apoio, ou de repreensão com amor. Quero que quando cresça, ela tenha em mim uma amiga próxima, que me conte seus medos, suas dificuldades e porque não seus erros. Já ouvi muito pai e mãe falando... Ah se meu filho (a) apanhar na rua, apanha em casa também. Gente, que isso?! Nossos filhos precisam encontrar nos pais, abrigo, amparo. Que Deus me livre, mas se um dia minha filha usar drogas, engravidar do namorado, beber, fumar, etc não quero ser a última a saber. Vou ensiná-la, discipliná-la e corrigí-la com amor.
José nunca, nunquinha precisou bater na Clarice. Ele usa outros meios para as horas de disciplina. E como ele nunca precisou dar palmadas nela, falei com ele que eu também não mais daria. Desde aquele dia em que vi os olhinhos dela amedrontados.

Eu amo a palavra de Deus a ponto de segui-la. A Bíblia fala sobre corrigir filhos. A Bíblia ensina a usar a vara como correção para filhos insensatos. INSENSATOS. Mas Deus fala também de uma disciplina com amor. Deus disciplina seus filhos a quem ama. Por outro lado, Deus também orienta os pais a não provocar seus filhos à ira.

Nosso país sofre tanto com crianças maltratadas, violentadas de todos os jeitos possíveis. Essa lei veio para libertar essas crianças. Que são espancadas pelo pai quando esse pai chega bêbado em casa. Que apanham de cinto, vara e levam até queimaduras pelo corpo porque fizeram uma birra porque estão com sono, cansadas ou as vezes querendo até um colo. Crianças que sofrem com um lar desestruturado, com pais que não tem tempo para os filhos, com pais que surram filhos por terem derramado suco no chão.
Uma amiga apanhou de cinto um dia porque queria um brinquedo e seus pais não tinham dinheiro pra comprar... então seu choro foi abafado com uma música alta enquanto apanhava. Ela foi dormir soluçando naquela noite, com marcas de cinto nas costas.

O Estado proíbiu nós pais de dar uma palmada em nossos filhos. Mas nós pais esclarecidos, que zelamos pela educação dos nossos filhos, lemos, nos informamos, temos condições de educar sem palmadas. Acredito que exista sim outras formas de educar, de dizer não, de dar limites que estão além da palmada que, certa ou não é o caminho mais curto, mais fácil. Conversar, dar limites e outros tipos de castigo envolve um tempo maior e maior atenção. Aqui em casa as conversas e castigos têm surtido efeito e um efeito positivo.
Crianças que mentem ou que tem algum desvio de caráter, palmadas não vão resolver, eu acho. O tratamento deve ser outro.

Dar bons exemplos de vida, ser correto, pagar nossos contas, honrar nossa palavra, não termos vício, orar com seu filho, ler a Bíblia com ele(a), não falar palavrão, não ser fofoqueiro (etc) são ensinamentos que certamente, são melhores do que qualquer palmada. Crianças se espelham nos adultos, lembremos disso.

Eu acredito que disciplinar com amor vai muito além de DAR uma palmada ou NÃO dar uma palmada.
Disciplinar com amor pode ser um processo de cura.




Um comentário:

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